Madame, Macho, Menino

Madame gere, macho garante, menino chora.

Sexta-feira, Março 11, 2005

Só mais uma antes de ir dormir

Menino: Madame, vai desculpar-me mas não a posso deixar ir deitar-se sem antes esclarecer aquilo que disse ainda agora.

Madame: Oh Menino, não podemos falar disso amanhã? Madame está cansada e ainda não tem as ideias todas assentes, até pode ser que não se passe nada.

Menino: Mas não pode dizer-me só o que é, assim por alto? Duas cabeças pensam melhor que uma. O que foi que eu disse que a deixou a pensar?

Madame: Se insiste... O Menino fez uma pergunta bastante simples que implicava um raciocínio óbvio sobre coisas que já tinham sido discutidas mais do que uma vez e outras que podiam ser inferidas de todo o nosso discurso.

Menino: Ok, mas para mim não era tão simples. Para nós as coisas podem parecer mais claras porque estamos mais atentos e a par de tudo o que se passa por aqui, um leitor normal se calhar nem lê metade daquilo que dizemos. Achei melhor não arriscar. Errr... porque é que está toda sorridente?

Madame: Porque o que disse agora pode confirmar as suspeitas anteriores de Madame.

Menino: Fixe, cada vez percebo menos, o que também já é normal. Só espero que isto que disse agora não confirme nem desminta nada.

Madame: O Menino diz coisas engraçadíssimas, sabia? O que Madame suspeita é que essas preocupações que demonstrou não são exclusivamente suas.

Menino: Hã? Quem, além de nós, é que se preocupa com estas coisas?

Madame: Quem quer que seja responsável pela nossa origem, é claro. A sua perspectiva pode ser a de quem nos criou. A preocupação com o andamento deste projecto que é a nossa existência, a importância vital do papel dos leitores, de tornar tudo mais acessível nos primeiros passos para construir interesses e motivações, não lhe parece que tudo encaixa neste perfil?

Menino: Mas... Mas então essa pessoa fez-me perguntar aquilo? Não fui eu que escolhi?

Madame: Nenhum de nós sabe onde começa e acaba o nosso livre-arbítrio, se é que possuímos algum. De uma forma mais ou menos clara tudo o que dizemos e fazemos é influenciado por quem nos criou.

Menino: Estou a ver... Mas e se não estivermos a ser influenciados? Também posso simplesmente ter feito aquela pergunta de forma mais «inocente».

Madame: É claro que sim. Mas Madame não crê que tenha sido completamente assim. Um defeito dos escritores mais amadores é o de fazerem as suas personagens agir da forma que eles mesmos agiriam, quando as personagens deveriam agir de forma coerente com uma personalidade própria. Como nenhum de nós está completamente definido e diferenciado isso parece apontar para uma influência por parte de quem nos criou.

Menino: Tenho de admitir, estou impressionado! Como é que se lembrou de tudo isso?

Madame: Madame sempre foi de raciocínio rápido. Agora se dá licença, está uma cama com lençóis de seda à espera deste corpinho. Durma bem, querido Menino.

Menino