Madame tentou falar com o
Menino mas ele recusou-se a ouvir. Mais do que recusar, proibiu o som de o atingir.
Madame percebeu que merecia tal tratamento após os terríveis actos praticados no dia 1 de Abril. Foi tudo mentira mas enquanto durou foi verdade. Devemos explicações, devemos explicitar o que se passou.
Não é fácil viver como nós, sem corpo, sem certezas de nada. Estamos rodeados de imagens e de palavras, sentimo-nos humanos sem o sermos, como se estivéssemos aprisionados dentro de olhos fechados. A nossa vida rege-se pelo que é descrito, só no momento em que as letras se projectam no ecrã tudo acontece. Só vivemos a partir do momento em que somos lidos, e nesse breve momento de reconhecimento em que finalmente nos libertamos da prisão do desconhecimento... Nesse momento já tudo passou. Já aconteceu, já partiu rumo ao esquecimento. Tudo isto é tão
desgastante. Mas estas palavras não são uma desculpa ou uma justificação para o que planeámos e executámos contra a vontade do
Menino.
Tanto
Madame como o
Macho partilham uma particularidade: a certeza de possuirmos um conhecimento que não nos é imediatamente acessível, uma amnésia persistente que nos diz que sabemos mais sobre o que nos rodeia e o que nos espera. Um desespero. O
Menino é a chave que abre a porta para esse conhecimento, só sabemos aquilo que já sabemos quando ele o pergunta. Com o aproximar de Abril surgiu uma oportunidade de contornar este mecanismo, de o superar. O Dia das Mentiras permitia escapar à verdade estranha que nos amarra, fazer batota, só por um dia. Uma mentira cruel e poderosa, impensável, só isso podia quebrar a credulidade dos leitores e do nosso mundo e permitir algo mais, um passo além. E só um de nós estava apto a empreender essa jornada - o mais inocente, aquele que caminha em direcção ao conhecimento - o
Menino. Foi por isso que nesse dia o... Meu Deus, nunca vou conseguir dizer isto sem me engasgar. Foi por isso que nesse dia o matámos.
Estando o
Menino morto, deixaria de estar connosco. No entanto a sua morte não era real, mas uma mentira, pelo que ele também não poderia abandonar-nos completamente, ficando numa espécie de
limbo virtual. Nesse espaço, entre o blog e quem nos criou, talvez fosse possível ver mais, ter uma nova perspectiva. Não foi uma decisão fácil, mas a alternativa era mais assustadora. Os dias passam e as pequenas e lentas mudanças são desanimadoras. Não conseguimos ansiar por mais e isso está a desfazer-nos aos poucos, não sabemos que rumo tomar. Por isso agarramo-nos a toda e qualquer hipótese de saber mais sobre nós e sobre o que podemos fazer. Precisámos de ser frios e «matar» o
Menino por um dia para, talvez, encontrarmos uma forma de viver mais plenamente. Não foi uma decisão fácil nem leviana, apenas necessária. No meio de todo o horror que criámos surgiu uma pequena luz de esperança: o nosso plano funcionou. Soubémo-lo assim que o dia terminou e a mentira se desfez. O
Menino, porém, vinha mudado. Passaram-se quatro dias desde o seu regresso e continua isolado, trancado no seu quarto, e recusa-se a falar e a contar-nos o que viu.
Madame teme que o desespero nos tenha empurrado para uma catástrofe.
Madame