Madame, Macho, Menino

Madame gere, macho garante, menino chora.

Sexta-feira, Abril 22, 2005

O olhar exterior

PensamentosMalditos. Odeio-os tanto, tanto! Gostava que fossem pequeninos e coubessem dentro das minhas mãos para os apertar com força, esmagá-los e parti-los aos bocadinhos. Só falam no plano deles e como foi tudo «necessário». Não me interessa. Eles não sabem o que me fizeram, não imaginam os resultados. Quando me mataram no dia das mentiras para se aproveitarem de uma brecha nas regras das nossas vidas, iniciaram uma catástrofe. Essa catástrofe continua viva dentro de mim a matar-me um pouco todos os dias. O conhecimento, o saber que eles ambicionavam é muito mais do que aquilo que previram. Como puderam ser tão ingénuos e esperar respostas simples? Queriam revelações? O máximo que alguma vez vão conseguir atingir com o meu olhar exterior são paradoxos. A culpa foi deles por quebrarem as regras. Agora o Menino, aquele que devia fazer as perguntas que abrem caminho para o conhecimento, tem dentro de si outro meio de atingir as verdades. E tal como o conhecimento por saber que a Madame e o Macho possuem, também eu agora tenho uma parte em mim que é inatingível.

Menino

Próximos passos

Madame: Ele reagiu. Finalmente começou a extravasar a sua raiva.

Macho: Tal como previmos que ia acontecer. Agora só temos de esperar que se esvazie dela para podermos começar a tentar que as coisas voltem a ser como eram.

Madame: As coisas nunca vão voltar a ser como eram. Sabíamos disso quando pusemos em prática este plano.

Macho: Eu sei, mas se nos esforçarmos talvez consigamos criar algo... algo bom outra vez. Estávamos bem, antes.

Madame: Estávamos num impasse e a perder terreno. Com todo o potencial e poder à nossa disposição neste mundo virtual e ainda assim continuávamos a ser arrastados para um esquecimento, um ser-indistinto.

Macho: Ouve, eu também não queria que as coisas acontecessem assim, mas os nossos motivos são genuínos apesar do que o Menino pode pensar neste momento. Se algum dia ele perceber isso, talvez possamos ser de novo uma família, quem sabe?

Madame: Só sei que continuamos em perigo e que esta espera não pode continuar por muito mais tempo.

Macho: Perigo?

Madame: O mesmo perigo de que me avisou há algum tempo atrás. Não reparou como trocámos de posição desde a nossa última conversa? Como os nossos papéis se inverteram? Era o Macho que devia estar a convencer-me da necessidade dos nossos actos.

Macho: A perda de identidade... Os nossos papéis continuam a ser demasiado semelhantes, ainda mais agora que partilhamos este plano. Porque será que não conseguimos divergir mais?

Madame: Meu caro, não caia no erro que lhe foi apontado ainda agora.

Macho: Ok, ok, um gajo também já não pode ser inseguro de vez em quando? Pronto, é só uma questão de tempo e as coisas até estão mais ou menos encaminhadas. Se não fizermos erros estúpidos ainda vamos sair por cima.

Madame: Não me pareceu muito convicente, querido Macho. Tem de crer naquilo que diz.

Macho: Tás a querer ensinar-me as regras da nossa existência, é?

Madame: Óptimo, assim está muito melhor.

Quarta-feira, Abril 20, 2005

Esqueçam

Se pensam que com piadas e a ignorar o assunto me convencem a fazer o que quer que seja, podem ir tirando o cavalinho da chuva. E não se incomodem a pedir desculpas outra vez, o que vocês fizeram não tem desculpa! Não me insultem com os vossos lamentos porque eu é que lamento alguma vez ter feito parte desta «família». Se eu fosse realmente importante para vocês, se houvesse qualquer tipo de laços verdadeiros entre nós, nunca teriam sequer posto a hipótese de fazer o que fizeram.

Vocês não fazem ideia... Não imaginam o que passei. Foi mentira? Foi. Importa alguma coisa? Nada, senti tudo à mesma. Foda-se... ainda o sinto aqui dentro, não percebem?! É como se todos os dias voltasse a vivê-lo no meu interior, dá-me voltas ao estômago como se quisesse virar-me do avesso. Parece que fico sem ar, que me esqueço de como se respira. O medo está sempre aqui comigo e de um momento para o outro o pânico toma conta de mim e parece que vou morrer outra vez. Tenho medo de cada gesto, medo que o segundo seguinte seja mais doloroso que aquele que passou. E vocês queixam-se das vossas vidinhas fúteis e virtuais? Acham que neste momento me importo minimamente com isso?

Odeio-vos.

Menino

Sábado, Abril 16, 2005

Rever estratégias

Porreiraço. Como se já não bastassem os nossos problemas internos, ando a verificar que os leitores que estamos a tentar angariar extra-blogs vêm cá parar pelas razões erradas. Basta ver os termos mais utilizados nas pesquisas no Google que depois aterram aqui na nossa casinha:

* boazonas -> esta é clássica, pronto.
* como fazer dread look nos cabelos
* macho -> ao menos nesta acertaram.
* menino bem
* menino de dread -> menino de dread?
* mobília para quarto de menino -> uau, tantas palavras!
* perigos
* respostas para perguntas parvas -> adorei esta e, pensando bem, acho que veio ter ao sítio certo.

Mas a que aparece mais vezes e que me deixa realmente preocupado:

* roupa da bershka

Temos mesmo de pensar bem sobre os caminhos que estamos a tomar, a continuar assim não vamos muito longe.

Macho

Segunda-feira, Abril 11, 2005

Desapareçam

Deixem-me em paz, seus hipócritas de merda, NUNCA mais quero olhar para as vossas caras odiosas na vida!

Menino

Sexta-feira, Abril 08, 2005

Eventualmente

Madame: O Menino ainda não saiu do quarto. Isto não pode continuar assim, temos de fazer alguma coisa e depressa.

Macho: Sugestões?

Madame: Não me olhe dessa forma, tem tanta culpa no cartório como eu.

Macho: Não estava a insinuar nada, ok? Já passámos a fase das culpas, discutimos muito tempo antes de fazermos isto, agora é tarde para arrependimentos.

Madame: Só queria que isto não tivesse de ser assim... Não tinha de ser assim.

Macho: Não tivemos alternativa, sabes disso. Não podíamos deixar passar isto em branco.

Madame: Será que não? Neste momento Madame já não tem certezas de quase nada.

Macho: Então é bom que ordenes os miolos porque não podemos dar-nos ao luxo de ter dois traumatizados na família, ok? Aquilo que fizemos foi demasiado mau para não servir para nada.

Madame: Tentámos pedir desculpa. Tentámos provocá-lo. Porque é que ele não reage?

Macho: Talvez só precise de algum tempo para reflectir. Ele tem de sair dali eventualmente, mais cedo ou mais tarde vai enfrentar-nos.

Madame: Talvez...

Quinta-feira, Abril 07, 2005

Volta

Puto, o que é que querias que fizéssemos? Que nos deixássemos estar quietinhos enquanto as nossas vidas se gastam? Ou achas que lá por sermos virtuais somos «imortais»? Acredita, não queres viver para sempre agarrado a uma réstia de uma memória, é um pesadelo de que nunca se acorda e que não permite descanso. As coisas já são suficientemente más. Acredita no que te dizemos, se pudéssemos ter feito as coisas de outra forma... Se te tivéssemos contado antes nunca terias concordado e poderias ter fugido, poderias ter arranjado uma forma de nos impedir. Era apenas uma mentira, o teu sofrimento, a tua morte, nada foi real e tu sabe-lo tão bem como nós. Se quiseres esquecê-lo é contigo, esquece, mas por favor, não nos abandones. Nós precisamos de ti... e do teu perdão. Por favor, volta para nós. Não faz sentido não sermos uma família.

Macho

Terça-feira, Abril 05, 2005

Ausências

Madame tentou falar com o Menino mas ele recusou-se a ouvir. Mais do que recusar, proibiu o som de o atingir. Madame percebeu que merecia tal tratamento após os terríveis actos praticados no dia 1 de Abril. Foi tudo mentira mas enquanto durou foi verdade. Devemos explicações, devemos explicitar o que se passou.

Não é fácil viver como nós, sem corpo, sem certezas de nada. Estamos rodeados de imagens e de palavras, sentimo-nos humanos sem o sermos, como se estivéssemos aprisionados dentro de olhos fechados. A nossa vida rege-se pelo que é descrito, só no momento em que as letras se projectam no ecrã tudo acontece. Só vivemos a partir do momento em que somos lidos, e nesse breve momento de reconhecimento em que finalmente nos libertamos da prisão do desconhecimento... Nesse momento já tudo passou. Já aconteceu, já partiu rumo ao esquecimento. Tudo isto é tão desgastante. Mas estas palavras não são uma desculpa ou uma justificação para o que planeámos e executámos contra a vontade do Menino.

Tanto Madame como o Macho partilham uma particularidade: a certeza de possuirmos um conhecimento que não nos é imediatamente acessível, uma amnésia persistente que nos diz que sabemos mais sobre o que nos rodeia e o que nos espera. Um desespero. O Menino é a chave que abre a porta para esse conhecimento, só sabemos aquilo que já sabemos quando ele o pergunta. Com o aproximar de Abril surgiu uma oportunidade de contornar este mecanismo, de o superar. O Dia das Mentiras permitia escapar à verdade estranha que nos amarra, fazer batota, só por um dia. Uma mentira cruel e poderosa, impensável, só isso podia quebrar a credulidade dos leitores e do nosso mundo e permitir algo mais, um passo além. E só um de nós estava apto a empreender essa jornada - o mais inocente, aquele que caminha em direcção ao conhecimento - o Menino. Foi por isso que nesse dia o... Meu Deus, nunca vou conseguir dizer isto sem me engasgar. Foi por isso que nesse dia o matámos.

Estando o Menino morto, deixaria de estar connosco. No entanto a sua morte não era real, mas uma mentira, pelo que ele também não poderia abandonar-nos completamente, ficando numa espécie de limbo virtual. Nesse espaço, entre o blog e quem nos criou, talvez fosse possível ver mais, ter uma nova perspectiva. Não foi uma decisão fácil, mas a alternativa era mais assustadora. Os dias passam e as pequenas e lentas mudanças são desanimadoras. Não conseguimos ansiar por mais e isso está a desfazer-nos aos poucos, não sabemos que rumo tomar. Por isso agarramo-nos a toda e qualquer hipótese de saber mais sobre nós e sobre o que podemos fazer. Precisámos de ser frios e «matar» o Menino por um dia para, talvez, encontrarmos uma forma de viver mais plenamente. Não foi uma decisão fácil nem leviana, apenas necessária. No meio de todo o horror que criámos surgiu uma pequena luz de esperança: o nosso plano funcionou. Soubémo-lo assim que o dia terminou e a mentira se desfez. O Menino, porém, vinha mudado. Passaram-se quatro dias desde o seu regresso e continua isolado, trancado no seu quarto, e recusa-se a falar e a contar-nos o que viu. Madame teme que o desespero nos tenha empurrado para uma catástrofe.

Madame